Concentração em um único ativo: o risco de ter patrimônio e renda na mesma empresa

Para muitos sócios, médicos donos de clínica, advogados sócios de escritório e fundadores de empresa, o maior investimento da vida não aparece no extrato da corretora. Ele está no contrato social. O pró-labore vem da empresa, os dividendos vêm da empresa, o imóvel onde a operação funciona muitas vezes está no nome do sócio, e o aval das dívidas também. Patrimônio e renda dependem do mesmo CNPJ.

Isso não é um erro. Concentração é, quase sempre, o que constrói patrimônio. O problema começa quando ninguém percebe que ela continua lá depois que o patrimônio já foi construído. Este artigo propõe um jeito simples de enxergar essa concentração e de reduzi-la sem abrir mão do negócio.

O ativo que não aparece no extrato

A teoria de finanças pessoais trata a capacidade de gerar renda ao longo da vida como um ativo: o capital humano. A ideia está bem documentada, por exemplo, na monografia Lifetime Financial Advice: Human Capital, Asset Allocation, and Insurance (Ibbotson, Milevsky, Chen e Zhu), publicada pela CFA Institute Research Foundation em 2007. Uma das conclusões práticas dessa linha de pesquisa é que a carteira financeira deve ser pensada em conjunto com o capital humano, e não isoladamente.

Para um funcionário de uma grande empresa, o capital humano costuma se comportar de forma relativamente estável. Para o sócio de um negócio próprio, não: a renda futura dele tem a mesma fonte de risco que a participação na empresa. Quando se soma isso ao valor das quotas, o resultado é que boa parte do patrimônio total da família está apostada em um único ativo.

O problema não é o tamanho, é a correlação

Uma empresa pode ser excelente e, ainda assim, passar por um ano ruim: perda de um cliente relevante, mudança de regulação no setor, saída de um sócio, um litígio, uma crise de crédito. Em um patrimônio concentrado, esse ano ruim chega por todos os lados ao mesmo tempo:

  • a renda cai, porque pró-labore e distribuição de lucros dependem do resultado;
  • o valor da participação cai, e ela fica mais difícil de vender exatamente quando seria útil vendê-la;
  • a capacidade de poupar some, justamente quando seria preciso reforçar o caixa;
  • as garantias pessoais dadas à empresa (aval, imóvel em garantia) podem ser acionadas.

É essa coincidência que transforma um problema da empresa em um problema da família. Diversificar, nesse contexto, não é só ter vários produtos na carteira. É ter patrimônio que não dependa do mesmo risco que já paga as suas contas.

As formas escondidas de concentração

Vale fazer um inventário honesto. Em geral, a exposição ao próprio negócio aparece em mais lugares do que o empresário imagina:

  • Participação societária: as quotas ou ações da empresa.
  • Renda: pró-labore, dividendos e bônus vindos da mesma operação.
  • Imóvel operacional: a sede, a clínica ou o galpão no nome do sócio, alugado para a própria empresa. O aluguel parece renda diversificada, mas depende do mesmo inquilino.
  • Garantias pessoais: avais e fianças em empréstimos da empresa. Não aparecem no patrimônio, mas fazem parte do risco dele.
  • Crédito para a empresa: dinheiro da pessoa física emprestado ou aportado no negócio para cobrir aperto de caixa.
  • Carteira no mesmo setor: o médico que investe em ações do setor de saúde, o fundador de tecnologia que concentra a carteira em empresas de tecnologia. Familiaridade não é diversificação.

Um método em cinco passos

1. Faça o mapa de exposição

Liste tudo o que a família tem e tudo o que ela deve, e marque o que depende, direta ou indiretamente, do mesmo negócio. Inclua renda, imóveis, garantias e investimentos financeiros. O objetivo não é chegar a um número exato, e sim enxergar a proporção.

2. Faça a pergunta de estresse

Se a empresa ficasse um ano sem distribuir lucro, de onde viria o dinheiro da família? Quais ativos poderiam ser usados sem venda forçada? Se a resposta for “da própria empresa”, a concentração está maior do que deveria. O artigo Liquidez e reserva: quanto caixa um patrimônio sofisticado precisa manter fora do mercado detalha como dimensionar essa reserva.

3. Separe de verdade a pessoa física da empresa

Misturar contas torna invisível o quanto a família depende do caixa do negócio. Regras claras de pró-labore, distribuição e empréstimos entre sócio e empresa são o ponto de partida. Tratamos disso em como separar as finanças da pessoa física e da empresa.

4. Crie uma política de retirada para fora do negócio

Em vez de decidir caso a caso, defina por escrito que parte dos lucros distribuídos vai, de forma recorrente, para um patrimônio financeiro fora da empresa. É a forma mais simples de transformar o sucesso do negócio em patrimônio que sobrevive a um mau momento dele. Antes de definir a forma de retirada, converse com o seu contador sobre os efeitos tributários de cada alternativa.

5. Diversifique em relação ao seu negócio, não só entre produtos

A carteira financeira do sócio deve ser montada considerando o risco que ele já carrega. Se o negócio é muito sensível a um setor, a uma moeda ou ao ciclo de crédito, faz sentido que a carteira fora da empresa tenha pouca dependência desses mesmos fatores. Os fundamentos da diversificação estão em diversificação nos investimentos.

O que diversificar não resolve

  • Não elimina risco. Diversificação reduz o risco específico de um ativo, mas o risco de mercado continua existindo.
  • Não é vender a empresa. O objetivo é equilibrar, não abandonar o negócio que gera a riqueza.
  • Não substitui proteção. Acordo de sócios, seguros e planejamento sucessório tratam riscos que a carteira não trata. Veja sucessão patrimonial: decisões em vida.

Em resumo

Concentração constrói patrimônio; diversificação o preserva. Para quem tem renda e patrimônio na mesma empresa, o primeiro passo é enxergar a exposição inteira, inclusive a que não aparece no extrato: renda, imóvel operacional, garantias e investimentos no mesmo setor. O segundo é criar, de forma disciplinada, um patrimônio fora do negócio, com liquidez e com riscos diferentes dos que você já carrega. Revise esse desenho com seu assessor e com seu contador sempre que a empresa ou a sua vida mudarem.

Jair Lemes, CFA
Diretor de Gestão e CEO da Brava Capital, apresentador do quadro Capital Inteligente e Professor de Finanças na CFA Society Brasil. Jair é administrador com MBA pela FIA/USP e Mestrado Profissionalizante em Gestão e Economia pela (ESA) IAE Université Pierre Mendès da France. Iniciou sua carreira em seguros na empresa espanhola Mapfre. Trabalhou em países como Japão e Reino Unido no setor de telecomunicações e tecnologia. Trabalhou no Citibank nas áreas Operacional e de Produtos enquanto ao mesmo tempo lecionava em universidade.

Se a sua empresa parasse de distribuir lucro amanhã, quanto do seu patrimônio continuaria de pé? Fale com a Brava sobre gestão de patrimônio e Carteira Administrada.


As informações contidas neste material são de caráter meramente informativo e não constituem oferta, solicitação ou recomendação de investimento, nem consultoria jurídica, contábil ou tributária. A Brava Capital não se responsabiliza por decisões tomadas com base neste material. Investimentos envolvem riscos, inclusive de perda do capital investido. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. A Brava Capital é gestora de recursos autorizada pela CVM e associada à ANBIMA.

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